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Publicado por em out 17, 2015 em Bispo Inaldo Barreto, Blog, Notícias | Ninguém comentou

QUANDO ERA MENINO

QUANDO ERA MENINO

A nossa infância é uma pré-teologia. Toda uma vida, que muda quando chega a Idade da Razão, com ela as luzes e com elas as dores, a verdade do mundo adulto, impiedoso, tosco, sábio, duro, leve, bom, agradável e desagradável. “Quando eu era criança”, vivia num período pré-cristão, “mosaico” não das musas, mas da lei de Moisés, muito mais anterior a ela, aquela Lei posta na consciência que a criança não sabe se é Lei ou o que é. Um fator Melquisedeque, o presente de Deus.

Ele falava a respeito do Amor. Fico pensando que a forma como ele redigiu esse texto sobre o amor parece uma criança divagando sobre o seu mundo particular quase autista. Uma criança e o seu pensamento sincero, puro, sem mácula, dentro de uma cosmovisão cristã plena sem ao menos saber o que é ser cristão ou cristianismo. Mas Paulo sabia e fez uma comparação da sua infância, talvez bem diferente da minha, ele teve uma infância judaica, eu uma infância gentílica, sem medo nem mesmo de Tupã, mas no fundo crendo em Deus como filho de cristãos. Cristão da missa, da reza, do “Credo em cruz, ave Maria”, pouco instruído. Menino instruído em religião só aquele que ia para colégio interno, ou um bom colégio, ou mesmo com uma professora particular. Eu tive uma, chamava-se Dona Dulce. Meu primeiro livro de leitura foi: “Criança Brasileira”, capa azul, acho que, Editora Abril. A primeira lição desse livro começava assim:

“Criança brasileira, procure conhecer Recife, a cidade progresso, capital do Estado de Pernambuco” Mas quando fui ter com a minha professora já sabia ler, aprendi com minha irmã Ivete ou Júlia.

Assim somos quando criança. Na minha infância no interior, numa vila conhecida pelo nome: “Cidade do Dr. Cássio Pim” já pela manhã, em qualquer dia da semana; pegava o cabo da vassoura e transformava-o num belo alazão, conversava com ele mentalmente,”ele não falava inglês”, era um cavalo civilizado, então eu montava e saia em disparada pelo campo que ficava em frente da nossa casa, qualquer monte era uma montanha para ser escalada, de lá se via o horizonte que se encontrava com o verde da campina. No trote todo caminho era percorrido, não pensava em nada, a não ser no que via, e todo o mundo era perfeito, a grama verde, trilhas estreitas onde só passava o “cavalo de pau”, às vezes meu irmão vinha atrás ou seguia na frente, pequenos outeiros serviam de montanhas para observar o mundo montado no valente alazão. O barbante era o cabresto, a cara do cavalo indefinida, mas imaginada como um verdadeiro animal selvagem, no campo lá vai ele, domado por um cavaleiro intransigente no comando; ele era meu amigo até porque era obediente em tudo, trotava, e logo galopava veloz, o vento

soprando no rosto alegre, todo o céu a contemplar o cavalo e o seu cavaleiro. A criança dá muito trabalho ao anjo da guarda, mas o meu nunca reclamou. Daquele cavalo jamais caí.

Quando a fome chegava, saíamos em disparada de volta para casa, pensando como menino, correndo como um menino, vivendo como menino, feliz como um menino feliz. Não era nem crente nem incrédulo, era como criança cujos pais eram católicos, nunca pensei na Razão Suficiente como principio para justificar a existência de todas as coisas. Elas estavam alí eu estava junto com elas, e era como estar num jardim encantado.

Paulo fala do amor, nem sonhava com isso, apenas vivia isso. Mas lembro-me que nunca pensei que houvesse uma guerra, nem mesmo sabia o que era isso, tudo era perfeito. Paulo imagina como adulto o significado da palavra, νήπιος (népios), como aquele que é infantil, quando não fala, menino pequeno aprendendo a falar, pueril, néscio, débil. Desde Homero que νήπιος se refere ao ser que vem do estado fetal variando até ao estado da puberdade, é falado na carta aos hebreus que uma criança se alimenta de leite (Hb 5.13). Quando criança era mais comum para mim a fruta pão, o abacate, e a água da caçimba. Chegando em casa um copo d´agua da quartinha um alívio imediato, a quartinha era a geladeira da família, sem marca, sem nenhuma formosura, mas a água matava a sede de qualquer cavaleiro.

Na minha infância ser conduzido pelo acaso era a verdadeira liberdade, não era o vento de doutrina como se fala aos efésios, ” levando de um lado para outro” (Ef. 4.14), tudo era muito bom, ser criança é viver no paraíso, não se pensa muito em fazer o mal, mas isso também acontece. às vezes aparecem maldades no círculo da inocência. Mesmo assim Jesus dizia que, “dos tais é o reino dos céus”. A criança antevive o reino dos céus. Toda imaginação é realidade e tudo é perfeito. Às vezes demorava chover, seca prolongada, olhares no horizonte procurando a cortina fragmentada, rafereita de cristal úmido, quando ela chegava as crianças agradeciam a Deus, saindo na chuva, rolando no barro molhado, como se estivesse recebendo a visita de um anjo do bem, de Deus, de Cristo, enfim, era preciso agradecer. Era a primeira oração que fiz sem nenhuma instrução, coisa de menino.

Observar o céu no campo aberto era outro passatempo sem nenhum planejamento para uma vida feliz, era a pura felicidade de nada saber e ter todo o mundo nas mãos, um mundo perfeito, sem furacão, sem tempestades, sem tsunamis, sem mortes, sem dor. A primeira criança que foi embora e fiquei sabendo chamava-se, se não me engano, “Lucinha”, filha do Sr. Badú. Todo mundo estava triste, como criança via a tristeza, sentia, como criança pensava como criança sem saber o que pensava, sem conseguir conjugar aquele verbo que até hoje os adultos da mesma forma não conseguem, não compreendem. Paulo disse que ela será vencida para sempre. As pessoas passavam de cabeças baixas, de um lado para outro. Nunca me esaqueci da varanda longa quase circundando a Casa Grande, toda pintada de um azul celeste. Geralmente, quando a dor chegava a mãe tirava com um toque, um olhar.

Depois de contemplar o céu azul, montei o cavalo de pau e saí em disparada, a poeira foi tanta que já não se podia ver quem vinha atrás. Às vezes um perigo imaginário cavalgava muito próximo, olhando desconfiado fugia a todo galope pelas planície verde do campo. Minhas primas costumavam falar do “Boitatá”, almas do outro mundo, ou algum “Currupira”. Mas quando esses medos vinham uma

coragem também surgia, não sabia de onde ela vinha, mas espantava a serpente de olhos de fogo. O cavalo aumentou o galope, e logo cheguei em casa, olhei para trás e os primeiros sinais da escuridão anunciavam a sua presença e mandava toda crança ao banho da tarde ao sono da noite.

A porta de madeira, era só empurrar, entrava e ia direto para a cozinha procurar a quartinha e tomar um bom gole d´agua gelada. Ouvi um ranger de porteira, era o vaqueiro que chegava com seus gados, Juely passou por mim numa desabalada carreira para ver a boiada passar. Amanhã era dia de caçar com Mimi, um gato que agente como menino ou menina pensava que o bicho fosse caçador.

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